“DESEJO QUE SEU DIA SEU ABENÇOADO”

 

Ao abrir os olhos, Dona Nenzita já buscava o celular. Não por causa do despertador do aparelho, que ela desligava de pronto, mas para entrar no Facebook e no WhatsApp. Era um dos momentos mais felizes do dia, quando ela poderia entrar em contato com todos aqueles que amava. A solidão que sentia desde quando a filha foi morar na Itália tinha se tornado intolerável. Um lado dela entendia que a oportunidade de trabalhar com “o tal do neutrino” era o que a filha, doutora em Física pela UNICAMP, sempre buscou. Até as costuras que ela fazia não por necessidade, mas por gosto, perderam a graça. Seu marido, Inácio, suboficial reformado da Aeronáutica, apesar de atencioso, sentia que não tinha mais acesso a esposa. Tudo nela se limitava a remédios, desgosto e resmungo. Os velhos discos de vinil que eles escutavam juntos – Paulo Sergio, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi e Fevers – nunca mais saíram da capa. Raramente ia às missas e acabou por abandonar a Novena de Nossa Senhora Desatadora dos Nós. As amigas de igreja a deixaram de lado. “É depressão, precisa de tratamento urgente” diziam. E a saúde dela declinava. A magreza que antes era acompanhada pela postura altiva de anos e mais anos costurando, passando e lavando para fora, agora dava a Dona Nenzita uma fragilidade de folha seca.

 

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No último Natal as coisas começaram a mudar. Carla passou uma semana na casa dos pais e deu de presente para a mãe um celular importado. O pai também ganhou, mas preferiu deixar o aparelho na gaveta. Ele era um homem de rotina fixa há 20 anos, quando foi reformado, e em uma cidade pequena como Divinolândia de Minas não era difícil encontrá-lo. Seu dia se limitava a compras na mercearia, dominó na praça, pão na padaria e um copo de Caracu com ovo no Zé das Codornas. Se a primeira semana com celular foi de dificuldade, apenas superado pelo curso intensivo que recebeu da filha sobre Facebook e WhatsApp, depois Dona Nenzita pegou o jeito. Foi quando começou o ritual de enviar mensagens todo dia para a filha, genro, netos, primos, irmãos, cunhados e amigas. Os parentes das gerações Y e Z já sabiam o que fazer com a vovó spammer e apenas respondiam no automático “bom dia, vó” ou “KKKKK”, sem nem ao menos abrirem as imagens com bebês sorrindo acompanhados pela frase “desejo que seu dia seja abençoado” em comic sans.

 

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Certa noite, antes de dormir, ela recebeu a seguinte mensagem de uma prima de Santana do Paraíso: “Mulher, como tu sabia da minha gravidez, se só hoje tive certeza e ainda não contei pra ninguém?” Dona Nenzita respondeu com áudio perguntando a razão da prima dizer aquilo. Como resposta, recebeu o print de uma mensagem enviada por ela mesma no grupo da família felicitando a prima pela conquista, depois de anos tentando engravidar. Só assim ela entendeu o questionamento da prima – ou achava que tinha entendido, pois já tinha tomado sua dose diária de Rivotril – e daí foi ver o grupo da família. Sim, ela tinha enviado a mensagem. Dona Nenzita pediu desculpas e desconversou. O efeito do remédio a deixava bêbada e o sono a fez desistir de entender o que tinha acontecido.

Nos dias seguintes as mensagens truncadas se repetiram. Confirmou presença no aniversário de um sobrinho três dias antes do convite ser enviado. Os memes de “bom dia” chegavam de madrugada e os de “boa noite” chegavam na hora do Jornal Hoje. Enviou para o grupo da igreja o vídeo do acidente com um trio elétrico duas semanas antes do ocorrido. Se mostrou indignada com a homilia do padre novato na missa da Páscoa ainda na Sexta-Feira da Paixão. Cobrou da sua irmã, que morava em Governador Valadares, R$ 20 por duas barras de uma calça que esta só compraria no Natal de 2018. Ao ver as mensagens que ela não se lembrava de ter enviado, Dona Nenzita se limitava a se desculpar. Falava que tinha se confundido, que mandou a mensagem para a pessoa errada. Apesar dela saber dos comentários, não admitiu nada para ninguém, mas às vezes achava que não sabia usar aquele celular direito. Mas em outros momentos, achava que tinha que voltar no psiquiatra e pedir uns remédios mais fortes.

Um dia, enquanto terminava de fazer uma cortina em sua velha máquina Singer, levou um susto com fortes batidas na porta da frente. Era sua vizinha, e madrinha de Carla, a “Cumadi” Tantica. Ao abri a porta, a voz da amiga a atingiu como um vendaval. Como se quisesse que ela engolisse o celular, a vizinha mostrava o visor do celular com um áudio enviado por Dona Nenzita a 15 minutos. Nele, uma voz chorosa se estendia por longos minutos dando pêsames à amiga pela morte do marido, Seu Onofre. Na rua ninguém entendeu do que se tratava o bate-boca entre as duas. A versão que depois correu pela cidade foi Tantica, ao bisbilhotar o celular do marido, descobriu o caso de mais de 20 anos entre ele e a vizinha.

Após a briga, com cada uma se entocando em sua respectiva casa, Dona Nenzita imediatamente largou o celular em um canto e ligou do fixo para a filha. Não interessava quanto custaria a ligação internacional, ela tinha que resolver aquele problema. Nas duas horas de tentativas para falar com a filha no Laboratório Gran Sasso na Itália, seu marido chega e fala que mais um tinha se partido: Seu Onofre tinha infartado agorinha no bar, nem tinha dado tempo do SAMU chegar. A raiva se converteu em desespero e Dona Nenzita não desligou mais o telefone. Tendo como italiano apenas um mal decorado “voglio parlare con mia figlia, la dottoressa Carla Abrantes”, ela finalmente conseguiu falar coma filha. Mal Carla disse “Oi, mãe”, Dona Nenzita começou a disparar tudo, absolutamente tudo o que a angustiava há anos: dos namoricos de Carla na escola que eram escondidos do pai até “a merda do celular” com defeito que ganhou de Natal passando e, é claro, pela solidão “do cão” que ela sofreu nos últimos anos. Após disparar toda sua munição, que estava como uma espinha de tambaqui em sua garganta, Dona Nenzita se sentiu aliviada e ao mesmo tempo exausta. Disse “é isso, vou comprar um outro celular e vou jogar esse trem aqui fora”. Carla escutava pacientemente a catarse da mãe até aquele momento, mas reagiu ao escutar sobre o destino do aparelho: “Calma, mamãe. Em dois dias eu vou sair de recesso aqui e vou pra casa. Guarde o celular, por favor. Me espera que assim que eu chegar vamos num shopping em Valadares e a senhora compra o celular que quiser”. “Tá certo, vou guardar essa praga então” e desligou.

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“Doutor Ragazzi, deu certo. Estou indo agora para o Brasil pegar o Tolman FTL”. Carla não conseguia esconder o sorriso de satisfação diante do Diretor do Gran Sasso. “Eu estava recebendo os relatórios diários e estou ciente do sucesso da sua empreitada, Doutora Abrantes”. Sem tirar os olhos da tela do Apple, Stefano Ragazzi respondeu Carla também com um leve sorriso de satisfação no rosto. Ao continuar, tentava recompor sua face de modo mais severo e preocupado: “Ainda tenho dúvidas se a ignorância absoluta de sua mãe quanto a natureza do equipamento conseguiu dirimir os efeitos von Neumann–Wigner na captação dos neutrinos. Ou mesmo se, de um ponto de vista relativístico, fez sentido considerar a distância de mais de 8.000 km segura para que a sua mente não causasse o colapso da função de onda nos neutrinos e táquions lá no Brasil”.

Com um tom de voz calculadamente doce e compassivo, Carla respondeu olhando nos olhos do Diretor: “O senhor acompanhou nesses meses o que aconteceu. Mais do que uma transmissão instantânea de dados via neutrinos, conseguimos superar de fato o Paradoxo de Tolman. Minha mãe do futuro enviou mensagens para o passado, o senhor sabe disso. Todos os colapsos foram monitorados e rasteados, nenhum deles de origem mental ou anômala. Nenhum amigo de Wigner interferiu nos bons dias e nas correntes de oração de minha mãe”. Enquanto Carla percebia que a piada não foi entendida pelo Diretor, ele se voltava para a tela do Apple. Em tom de alerta, Ragazzi disse: “Certo, menina. Você sabe que não estamos sozinhos nisso. Nossos amigos do CERN ficarão mordidos de inveja. Ainda estão traumatizados depois do vexame de 2011 e vão vir com tudo para nos desqualificar. Mas é nosso dever convocá-los para a sua viagem ao Brasil. E, sim, você sabe quem mais vai contigo nessa viagem”.

Como se sentisse quilos de chumbo repousando em seus ombros e pescoço, Carla apenas deu de costas e disse: “O senhor, por favor, se resolva com a Lockheed e a Raytheon, Diretor. Esse tipo de negócio está além das minhas for…”. Em tom professoral e seco, Ragazzi cortou o desabafo de Carla: “Doutora, este laboratório não é o Escritório de Marcas e Patentes em Berna e nem a senhora é Einsten em 1905. Estamos em 2017 e nenhum annus mirabilis é possível sem apoio financeiro maciço” Carla se virou e se arrependeu do que viu. O tom sardônico da fala final de Ragazzi deixava seu rosto com traços tão caricaturais como a de uma máscara carnavalesca do demônio: “Não fique chateada, Doutora. Aproveite a viagem para escrever o discurso do seu Nobel, sem esquecer de colocar nele um imenso agradecimento a sua mãe por tudo o que ela fez pela sua carreira”.

(Anderson Leite)

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