COMUNISMO GLOBAL

“Para Olavo de Carvalho, que sob as bênçãos do Padre Pio de Pietrelcina, me inspirou profundamente na realização deste livro”. Os tempos em que Adalberto só queria pescar no Piratinga e andar de mobilete lhe parecem uma outra vida. Ter superado essa existência, em suas palavras, “medíocre” é algo que ele deve aos ensinamentos do Professor Olavo. Hoje Adalberto é o homem por trás da marca Deus Vult BR: 880 mil seguidores no Facebook, um podcast com a mesma quantidade de assinantes e um canal de YouTube com mais de 1 milhão de inscritos. Em 2015 foi um dos brasileiros do ano da IstoÉ, sendo descrito como o representante de uma juventude “politicamente ativa” ainda que “conservadora e severa em seus hábitos”. E agora, 15 anos após “as escaras terem caído de seus olhos”, ele se vê a poucos instantes de finalizar sua contribuição à luta contra o comunismo. “É, o tempo passou mesmo”, ele pensa em voz alta, “uma hora dessa eu estaria no Bar da Dona Graça escutando “Toque Toque DJ” da Banda Stylus e não escutando a Messe Solennelle do Berlioz”.

 

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“Para Aline, minha Beatrice Portinari”. Adalberto hesitou ao escrever isso, afinal, se comparar a Dante soa presunçoso, mas o sentimento de devoção por sua esposa o obrigava a ser hiperbólico quando se tratava dela. “… minha Beatrice Portinari, pois este livro só foi possível após sua presença em minha vida”. Ía ficar assim mesmo. Pior, e sacrílego, seria compará-la a Santa Terezinha – apesar de ambas possuírem o mesmo olhar doce e afetuoso. Além disso, o livro tinha que sair hoje e ir para a editora. O Carlos Andreazza já estava ligando de novo, pressionando pelo manuscrito final. Ele devia a Andreazza acesso VIP a fidalguia carioca. As noites em apartamentos do Leblon, entre doses de conhaque importado e debates sobre Gustavo Corção, Juan de Mariana e a Escola Austríaca, deram um certo lustro para aquele moço nascido em uma família de carvoeiros. E pensar que pelos idos de 2002 seu maior interesse era fazer zerinho com uma Hornet carburada nas praças de Arinos.

“A Rede Vermelha: como o comunismo inventou o Brasil, a internet e o nosso mundo”. O título poderia ser mais bombástico, mas agora, resmungava, já era. O livro que começou como um textão de Facebook em 2013, e que foi compartilhado mais de 10.000 vezes – inclusive por gente como Reinaldo Azevedo, Roger e Lobão -, agora estava prestes a se concretizar. O crowdfunding para custear o projeto bateu R$ 350.000 em dois meses, sem contar o apoio do Instituto Millenium e da FSSPX. Adalberto tem certeza que agora, depois de tudo o que ele viu, escutou e leu na Rússia, Ucrânia e Polônia, só loucos e canalhas iriam ignorar a verdade. Por isso ele foi intransigente: o livro teria que ser publicado na íntegra e apesar da amizade com editores da É Realizações e da Vide Editorial, ele acabou fechando com a Record que bancou as 950 páginas. E é a mesma editora do Professor – uma honra, claro.

 

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“Agradeço ao amigo Andrey Andreev pelas longas e esclarecedoras conversas no Café Singer em São Petersburgo”. Ansioso e sem foco, Adalberto lembrou que tinha que responder o quanto antes o e-mail do produtor do History Channel. A possibilidade de um documentário baseado no livro era grande e Andrey se colocou à disposição para ser entrevistado novamente. Um livro e um documentário na TV a cabo mudaria a vida do casal. Com mais dinheiro, o sonho de uma grande família cristã se tornaria realidade e Aline poderia parar com o anticoncepcional.

“Tarefa que é, no seu mais elevado e ambicioso intuito, a de remover os obstáculos mentais que hoje impedem que a cultura brasileira receba uma inspiração mais forte do espírito divino e possa florescer como um dom magnífico a toda a humanidade”. Pronto, essa é a epígrafe. Rindo sozinho diante do computador, ele pensou até mesmo em um filme pela Netflix. “A versão brasileira de Winter on Fire, quem sabe?” Em sua cabeça surgem as imagens de como seria o documentário: Stálin em 1949 apresentando ao Politburo o projeto de uma rede secreta de comunicação eletrônica entre partidos comunistas e grupos subversivos ao redor do mundo via pequenos aparelhos portáteis. Corta para imagens do Sputnik em órbita, alternando com fotos de Carlos Marighela, Arafat, Brizola, Ulrike Meinhof, Amílcar Cabral, Fidel, Hồ Chí Minh, Lula e Agostinho Neto. Aparece Mao e a revelação que a ruptura sino-soviética se deu pelo irredutível monopólio do Kremlin sobre a rede comunista global. Corta para o desertor Viktor Belenko. Imagens dele em 1976 entregando para os EUA não só um MIG 25, mas o funcionamento de toda a, até aquele momento, desconhecida internet vermelha. Cenas do Muro de Berlim sendo derrubado. Estátuas de Lênin ao chão. Reagan sorrindo. Adalberto estava excitado só de pensar nas imagens e no close em seu rosto nesse instante. Ao se imaginar como um Sérgio Chapelin ele, em tom empostado, diz em voz alta “Era o fim de uma parte da Guerra Fria e o início de outra” e pensa: “Nessa hora entra aquela trilha do Inception.”

 

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“Prezado, Carlos. Desculpe a demora. A versão final, em anexo. Abraços fraternos.” Adalberto volta a devanear. A entrevista com Andrey seria a coroação do documentário. O neto de um dos responsáveis pelos últimos anos de funcionamento da internet vermelha e que fez fortuna no século XXI com a rede de relacionamentos Badoo. É Andrey que fornece as provas de como o comunismo internacional se espalhou silenciosamente pelo mundo como um câncer. Adalberto pensa em todos idiotas úteis que foram bancados pelos soviéticos e que serão desmascarados no seu livro – do Tropicalismo até a Xuxa, passando pelo Companhia do Pagode e o Dr. Enéias. Em mais de 5 horas de conversas gravadas, Andrey revelou até mesmo que está processando Zuckerberg e Saverin, seus dois colegas de Harvard, por espionagem industrial, dentre outras coisas. “Eles nunca criaram nada, apenas roubaram o que já era feito na minha terra desde os anos 50”. Mas ele mesmo admite, rindo, que o Badoo faz o mesmo e que perdeu muito tempo investindo em armas, times de futebol e prostituição antes de se ligar na mina de ouro que era a internet. Adalberto emenda outro devaneio e se vê sendo entrevistado no The Noite comentando a ironia do destino: “Pra você ver, Danilo, não é que conheci minha esposa a uns 3 anos atrás no Badoo e eu nem imagina…”.

 

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O tiro na nuca cortou a fantasia de Adalberto. Os rapazes enviados para a simulação do latrocínio já estavam para chegar. Aline poderia ter deixado essa tarefa para eles, mas além da sua responsabilidade diante do Komintern, ela queria dar o troco pelas noites mal-dormidas ao lado daquele “coxinha ruim de foda”. Enquanto tenta filmar o que sobrou d cabeça de Adalberto para enviar um vídeo a seus superiores, a esposa de olhar doce e afetuoso sentiu revirar o estômago ao lembrar que poucas horas antes tinham transado. Mas assim que ela largou a cabeça do marido sobre o teclado do computador, veio o alívio. Nunca mais teria que suportar aquele paquiderme barbudo que quando gozava sussurrava “ai, minha Santa Terezinha” em seu ouvido.

(Anderson Leite)

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