EMPREENDEDOR

“I’m guided by a signal in the heavens”

Leonard Cohen

Se existe um início, não é meu nascimento. Foi quando eu ainda pivete, com uns 14 anos vi pela primeira vez O Cavaleiro das Trevas. Não. Minto. Foi um pouco antes, com o  Tropa de Elite. Na escola, eu brincava de Capitão Nascimento dando tiro em vagabundo. Decorei todas as falas: “É 100%, 14?”, “Bota na conta do Papa”, “Não vai subir ninguém!”. É dessa época que consegui uma alma, uma mente – e ela ainda fala com a voz do Capitão Nascimento. Se alguém ler essa história, que leia com a voz dele – é essa voz que que me guiou até aqui, é a voz do meu pensamento. É meu bom senso, meu guia. Mas tudo mudou quando vi o Coringa do Cavaleiro das Trevas. Com ele entendi que existia um tipo de vagabundo que o Capitão Nascimento nunca poderia atingir ou parar. Mas o Coringa veio e ficou por lá, calado. Hoje sei que ele estava apenas esperando a hora certa.

Foi nesse ano que meu pai morreu em cima do cavalo, voltando da roça. Cirrose, trombose, apendicite… morando no interior, perto de Uruana de Minas, toda doença é igual quando alguém morre. No mesmo dia saí de casa. Não me dava com a novinha com quem ele tinha se juntado. Fui trabalhar fazendo tijolo em uma olaria nas bandas de Buritis. Só via gente quando ia entregar carregamento. Foi lá que conheci a família que me levou para Brasília. Fui morar na Guariroba já com trabalho certo. Serviço em obra: rápido, em menos de um ano aprendi a levantar parede, instalar rede elétrica, rebocar, colocar gesso em forro, fazer instalação hidráulica. Meu patrão dizia que o jeito que eu pegava na colher de pedreiro parecia que eu tinha 30 anos de obra. Eu não me misturava. Novo demais, só 16 anos. Sem família, sem passado, sem amigos. Meus colegas começavam o dia com uma pitchula de cachaça e um naco de goiabada. Analgésico de peão é pinga. Mas eu não sentia dor e nem gostava do trabalho. Apenas fazia.

Foi quando fiz supletivo, terminei o primeiro e o segundo grau. Arrumei namorada na escola de noite. Meu patrão me confiou ser mestre de obra em um prédio de kitnet em Taguatinga, perto da Feira dos Goianos. Em 2 anos de serviço como mestre de obras consegui um Astra e uma casa em Águas Lindas do Goiás. Umas 3 ou 4 namoradas. Sempre no forró – “eu dançava bem”, elas me elogiavam. Eu era o “menino com cara de homem sério, pra casar”.

Um dia, acabou a festa. Perdi as empreitadas todas. Era a crise, meu patrão dizia. Me virei um tempo vendendo vale transporte, fazendo corre com cheque chiquita, celular e relógio roubado. Montei uma banca no centro da Ceilândia. Era água de coco e refri, mas eu conseguia até uma Hilux semi-nova por R$ 10.000 com placa clonada. Vinha até gente do Piauí pra conseguir carro na minha mão.

Vendi o ponto por R$ 5.500. Eu podia pedir 10 vezes esse valor, mas eu já estava marcado demais, e nunca gostei da ideia de cumprir etapa na Papuda. Quando pensava nisso, sentia como se tivesse uma jaca crescendo no meu peito. E tinha muito pé de bota pedindo “ajuda de custo”. Não tinha mais nada pra fazer ali.

Um conhecido meu, dono de uma funerária na Ceilândia Sul costumava pescar no Pantanal. Mas o que ele trazia mesmo não era peixe: eram armas. De 22 até AK 47. Foram 3 anos trabalhando com ele. Ficava boa parte do ano no Paraguai dando jeito nas encomendas. Conheci chinês, sírio, ucraniano. Nego que se dizia do “partido” lá na China, outros que queriam ajudar a “causa palestina”. Também larguei tudo depois de um tempo.

E fui pulando por aí. Trabalhei como locutor de bingo e de cassino ilegal no interior do Goiás. Trabalhei como operador de colheitadeira em São Lucas do Rio Verde. Lá casei com uma galega polaca, linda. Ganhava uns R$ 5.000 por mês. Ela engravidou e sumi. A música tinha mudado e, como sempre, segui o ritmo. Fui parar em Belém. Barqueiro de pirata nas bandas do Marajó. Depois motorista de van na rota Marabá-Parauapebas. Um moça que trabalhava na Vale se engraçou comigo. Não durou muito, arrumei uma .12 pra dois conhecidos e virou um rolo com morte de um advogado, delegado… nem lembro direito. Ela ficou sabendo, teve um crise de choro, ficou gritando. Sumi de novo.

Acabei voltando para Brasília. Peguei a grana que eu tinha juntado e comprei uma retroescavadeira nova. Consegui um contrato pra máquina em obra do governo. O salário atrasava, o serviço era ruim. Os peões que trabalhavam comigo em operação tampa buraco ou derrubando barraco de invasão eram quase sempre detentos do semi-aberto. Conheci gente que já tinha serviço garantido com o PCC assim que cumprisse a pena. Foi numa dessas que voltei para o Paraguai. Tríplice fronteira. Apenas um serviço especial: matar o chefão que estava atrapalhando o PCC na área. Eu era a pessoa certa – sem ficha e com vida de trabalhador, carteira assinada e tudo mais. Sem rosto, sem nome, apesar dos três anos de contrabando na região. A .50 que fez o grosso do serviço foi responsabilidade minha. Quando vi as fotos dela e do cadáver do Rafaat nos jornais sabia que era hora de sumir de novo.

Fui pra São Paulo. Motorista de Uber. Marido de Aluguel. Cheguei lá com muita grana. Dei pra caridade, como sempre fiz. Nunca juntei nada, na verdade. Toda minha grana foi para o Lar dos Velhinhos Bezerra de Menezes. Fazer o que com esse dinheiro? Eu me bastava, só não queria ficar parado. Grana demais pode ser uma âncora – e sempre quis ser livre, solto. Mesmo sem saber bem para o que eu queria ser livre.

Larguei São Paulo. A Uber tinha começado com os carros automáticos da Google. Um conhecido ia abrir uma padaria em Acreúna. Fui com ele. Nesse meio tempo, até passei no concurso pra PM do Goiás. O Capitão Nascimento ficou orgulhoso. Quietar o facho, arrumar uma família. Não aguentei o primeiro dia. Aprendi a fazer pão e fui trabalhar na padaria. Acordava cedo. Morava no subsolo, no meio dos sacos de farinha e latas de manteiga.

 

Um dia me pagaram só com nota de R$ 100 e eu precisava de grana trocada para ir de moto táxi no centro da cidade. Ninguém tinha trocado e me sugeriram: “vai na lotérica aqui do lado, eles trocam”. Fui. Era dia 27 de dezembro de 2019. Apostei – algo que nunca fiz na minha vida. Na saída da lotérica, um daqueles folhetos de crente me foi entregue por uma moça de cabelos pretos longos e saia até o joelho. Um trecho da Bíblia ficou na minha cabeça martelando até a noite: “Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos”.

De noite tive o único sonho que consegui me lembrar em toda minha vida. Eu sei que sonho, tenho uma sensação de cansaço e de que fiz algo, mas nunca me lembrei de nada. Mas nessa manhã eu sabia que tinha visto um anjo com olho de novilho. Ele encarava com medo para algum lugar e ao mesmo tempo estava sendo levado por uma ventania muito forte. Ele tenta me dar as mãos, mas a tempestade era mais forte que suas asas. O sonho era a repetição sem fim dessa tentativa de segurar esse anjo de olhos esbugalhados. Amanheci todo estourado, como se uma patrola tivesse passado por cima de mim.

Dia 02 de janeiro descobri que ganhei sozinho a Mega da Virada.

400 milhões de reais na minha conta. Eu não tinha casa. Umas cinco peças de roupa. Um colchão no subsolo da padaria. Uma faca sem ponta pra cortar laranja. Escova de dente, pasta, toalha. Um filtro de barro, um copo. Colher e prato. E um panfleto da Sociedade Bíblica do Brasil falando sobre propósito. Pensei em doar tudo para o Lar dos Velhinhos, mas logo agora eu sentia algo diferente. Minha vida tinha sido toda regulada, medida como um relógio, regradinha, mesmo sem eu precisar fazer isso. Nunca encontrei o porquê de ser assim. Tudo se encaixava, mesmo sem um sentido. Bastava que o Capitão Nascimento falasse na minha cabeça e eu fazia. Construía e destruía. Queimava o dinheiro com caridade. Ou apenas queimava o dinheiro, como o Coringa fez. Se não fosse assim, eu não teria saído do lugar. Eu não tinha um porquê fazer as coisas, então me restava fazer bem feito.

Agora o dinheiro me foi dado do nada. E a voz que apareceu não foi mais a do Capitão Nascimento dando ordens. Era do Coringa – que nunca falou comigo, mesmo eu tendo 3 tatuagens dele. Mesmo eu revendo o filme quase todo dia desde os 14 anos. Decorei em português, decorei legenda, decorei em inglês apesar de não saber nem pedir um prato de comida em inglês. Mesmo assim, ele nunca tinha falado comigo. E ainda tinha o sonho. O único sonho que ficou. E o panfleto.

Retirei o dinheiro em Ipameri, uns 300 km de distância. Na minha cidade, ninguém nunca descobriu quem foi a ganhador. Casei, fiz família. Três filhos, dois já na escola. Comprei a padaria, mas continuo a fazer pão. Minha esposa, católica do neocatecumenato, mulher firme e bonita, toca a padaria junto comigo. Está grávida de novo, inclusive.  E, hoje, 10 anos depois, dia dos pais, estou aqui no subsolo da padaria. Meu trabalho vai começar – o único serviço que já tive gosto de fazer na vida.

Em 5 minutos, dez mil drones vão explodir mini bombas atômicas em lugares estratégicos ao redor do globo. Parte do mundo – a parte que interessa – estará sob um guarda-chuva de pulsos eletromagnéticos. O alvo são os servidores raiz da internet e as centrais de dados. No mesmo instante, cada um dos principais cabos intercontinentais da internet serão atacados por bombas convencionais em carros, drones, mini-submarinos – ou até mesmo homens-bomba a pé. Eu não esperava ter um culto, uma nova religião ao meu redor. Mas a fé e o ódio são as melhores ferramentas nesse tipo de empreendimento. E descobri que muita gente odiava a internet. Em meia-hora ela vai vai morrer. Ao mesmo tempo, 60% das forças armadas americanas estará inoperante, pois também daremos nosso jeito nos 47 satélites responsáveis pelo GPS no mundo todo.

O propósito disso? Não, não vou começar um discurso como o do Coringa para o Dent no hospital. Eu só queria me livrar dessa agonia que eu sempre senti. Só isso. Então pensei que poderia ir muito além de queimar uma montanha de dinheiro. Pensei em queimar o mundo.

(Anderson Leite)

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